Seguidores

Desemprego - o pior dos castigos

Já são mais de 11 milhões e 400 mil pessoas sem emprego no Brasil. O dado é da PNAD contínua, do IBGE, referente ao trimestre terminado em abril passado. O aumento da taxa, que agora está em 11,2%, é o pior dos castigos de uma crise econômica. A leitura sobre o atual cenário do mercado de trabalho brasileiro tem duas vias: a cíclica e a estrutural, ou seja, o que está acontecendo agora por causa da crise e o que isso provoca nos fundamentos da geração de empregos no país. A trajetória de piora se mantém e o caminho de volta vai passar, obrigatoriamente, por algumas etapas que incluem a melhora da confiança e, principalmente do crédito. “Não o crédito para o consumo. O crédito para o pagamento de dívidas, tanto das famílias quanto das empresas (...) Dá até para imaginar que as demissões vão perder fôlego no curto prazo se a confiança que parece voltar agora se mantiver. Mas não pode dar mais nada errado - o diabo está aí”, disse em entrevista exclusiva ao blog a economia Zeina Latif, da XP Investimentos.

A economista explicou as duas vias de análise do mercado de trabalho no país. Do ponto de vista cíclico, muita correção já foi feita nas grandes e médias empresas, mas ainda há potencial de mais demissões. No estrutural, para voltarmos a ter geração de vagas e contratações, o país terá que conquistar ganhos de produtividade com crescimento mais robusto da economia – o que está mais distante.

“A volta cíclica vai acontecer, mas talvez demore mais para o mercado reagir. Hoje as horas trabalhadas estão na mínima histórica, ou seja, tem muito trabalhador empregado, mas ocioso. No caminho de volta, precisa primeiro ocupar as horas de quem está na ativa. Neste momento a gente tem que cruzar os dedos para que essa recuperação leve da confiança que está vindo faça o empresário parar de demitir. Se ele der o benefício da dúvida ao governo, ele pode esperar para ver o que vai acontecer e segurar o trabalhador. O estágio é de contenção da demissão. Daí a ter volta da contratação, há uma longa distância”, disse Zeina Latif.

Do ponto de vista estrutural, o processo é mais longo e mais complexo. A melhor fonte de restauração do emprego é a produtividade que, por sua vez, melhora a competitividade da economia. A alta do dólar gerou alguma competitividade mas não o suficiente para fazer o PIB se recuperar. Segundo a economista da XP Investimentos, nos últimos anos muitas empresas se ajustaram buscando eficiência e racionalizando custos, o que gerou melhora na produtividade. Mas foi um processo desigual. “Elas são a elite, para as médias e pequenas empresas é muito mais difícil e elas acabam fazendo o corte ruim, que vai comprometer a produtividade quando a recuperação vier”, disse.

De onde virá o gatilho para a retomada do emprego?, perguntei à Zeina Latif.

“Quando a gente olha a experiência brasileira, toda a vez que se arruma a macroeconomia o país responde porque temos uma demanda reprimida para o consumo. O que tem de diferente desta vez, e daí vem a insegurança, é o fato das famílias e das empresas estarem passando por problemas financeiros, com alta inadimplência. Com este cenário, a variável chave para a volta cíclica é o crédito. Sem ele, o empresário não consegue tocar a vida. E o crédito secou, sumiu. Os bancos privados, se já tiverem um horizonte mais claro, podem começar a descomprimir um pouco e liberar o crédito. Os dados de novas concessões para pessoas jurídicas estão no mesmo patamar de 2004”, explica a economista.

A velocidade para retomada também é uma incógnita para os analistas, segundo Zeina Latif. Há aqueles que acham que o pior já passou e outros que veem ainda riscos de mais uma “pernada” de piora.

“O momento agora é divisor de águas. Vamos das mais uma pernada na piora ou vamos de fato estancar a crise. O pior já pode ter passado se não acontecer mais nenhuma surpresa muito negativa. É muito cedo para dar isto como certo, mesmo vendo o ministro (da Fazenda) Henrique Meirelles fazendo as coisas certas. A crise agora é mais grave, não adianta só o Banco Central baixar os juros para que as empresas se recuperem e voltem a contratar pessoas. Está havendo destruição de riqueza no país, muitas empresas fechando as portas porque está devendo. A volta deste quadro é muito mais difícil”, analisa.





Nenhum comentário:

Postar um comentário

Popular Posts