Bolsonarismo à deriva

Ao fugir do Brasil depois de perder a eleição, obter 59,8 milhões de votos e, logo depois, apresentar uma carta em que se auto entitula “presidente eleito”, o senador Flávio Bolsonaro tira mais um pouco do apoio ao movimento que seu pai começou a construir logo depois da eleição de 2014.  O bolsonarismo saiu fortalecido das urnas, nao pode ser ignorado, mas a fuga do candidato racha esse movimento é abre espaço a criação de líderes fora da família. 

Não são poucos os integrantes dos PL que, em conversas reservadas, criticam a viagem do senador, e aliados que, de público, rechaçam o teor da carta. Grande parte dos aliados esperava do senador um discurso na tribuna da Senado, com lançamento das bases a serem alinhadas para a oposição bolsonarista. Mas o candidato optou pela fuga, diante do pedido de apreensão do seu passaporte. E, na avaliação de muitos, Flávio não saiu do país por estar inconformado com o resultado e sim por causa  das investigações que pesam sobre ele, tanto relacionadas ao filme Dark Horse quanto aos negócios do advogado Willer Thomaz. 

Flávio foi escolhido candidato para não deixar o bolsonarismo fora da família. Ainda que perdesse, teria a missão de conservar essa liderança da direita nas mãos dos Bolsonaro. Porém, muitos acreditam ser difícil para o senador cumprir essa tarefa. Há quem diga que ele usa a derrota para construir uma narrativa que lhe permita escapar de responder por supostos delitos. E, sendo assim, há o risco de estreitar o bolsonarismo. Sua própria bancada — a maior, tanto na Câmara, quanto no Senado — se encontra dividida. Há os “snipers” do bolsonarismo-raiz e outro grupo que não compactua com o radicalismo já demonstrado pela família e que tem dúvidas sobre a lisura dos negócios do senador, investigado pela Polícia Federal. Entre esses últimos, há a certeza de que é preciso buscar novos líderes à direita, com capacidade de dialogar com todas as forças políticas. Ao fugir, Flávio demonstrou a muitos que não está preparado para ser este líder.  

Nos últimos dois dias, não foram poucos os aliados de Flávio que compararam o comportamento dele com o do presidente Lula, quando exposto a dificuldades. Investigado nos tempos da Lava Jato, Lula ficou no Brasil. E ao ter o pedido de prisão assinado pelo então juiz Sergio Moro, hoje governador eleito do Paraná nas hostes bolsonaristas, Lula foi para cima de um carro de som no ABC paulista e se entregou à PF. Ficou preso por quase dois anos. Ao sair da prisão, voltou à política e derrotou o então presidente Jair Bolsonaro, em 2022, por uma diferença ínfima de votos, depois de uma pandemia que matou 700 mil pessoas. Em 2022, Lula obteve 50,9% dos votos. Em 2026, contra Flávio, obteve 51,79%. 

Lula, não só derrotou Flávio, como ampliou a votação e mobilizou a juventude. Nessa eleição, aprendeu a usar as redes sociais. E tem quatro anos para preparar o sucessor, algo ainda em aberto. O PT, aos poucos está aprendendo que é preciso dar a vez a outros partidos. Fez isso para senador em São Paulo, o de mesmo derrotadas as duas candidatas tiveram uma boa performance. O bolsonarismo ainda nao aprendeu a sair do radicalismo familiar. Para 2030, se a direita quiser ter maiores chances de derrotar a esquerda, terá que caminhar para o centro, com um nome mais moderado. Até o presente capítulo, estão no páreo, pela direita, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e a senadora Tereza Cristina. A largada foi dada pela fuga de Flávio, que deixou o bolsonarismo sem leme. 


Denise Rothenburg


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